Recentemente, fui elegantemente acusado de possuir certa apatia intelectual. Meu acusador explica: é culpa – ou, melhor dizendo, é uma conseqüência inevitável – da faculdade de História, a qual estou em fins de cursar. Em essência, o contato com a historiografia teria me deixado incapaz de se surpreender com o presente, uma vez que nenhum dos supostos absurdos de hoje em dia causaria impacto em alguém que passa a vida universitária estudando a Guerra do Peloponeso, ou a noite de São Bartolomeu, ou a escravidão no Haiti, ou a Crise de 29, ou Auschwitz…
Em suma, a História – por seu horror e por seu didatismo – teria me deixado incapaz de se espantar com as coisas: ela (porque a História é uma mulher, aparentemente) me forneceria as chaves para justificar o que quer que houvesse de equivocado com a nossa atualidade, e quando não fornecesse, me confortaria com a lembrança de uma catástrofe muito mais horrível que estava seguramente trancafiada nos confins do tempo, de onde nunca poderia sair.
A acusação a que me refiro aqui, paradoxalmente, me espantou muito. Não só porque é normal que sintamos exatamente o que as pessoas dizem que não sentimos quando assim o dizem; mas porque em momento algum da minha vida universitária o saber historiográfico me forneceu qualquer conforto. Desde o meu primeiro mês de universidade, a fatal pergunta “Para que serve, afinal, a História?” assombra a mim e a meus colegas, muito dos quais darão eruditos mais completos do que eu.
Ao longo dos últimos anos, contudo, eu tropecei em uma série de respostas para essa questão, e fui colecionando-as como alguém que coleciona selos ou cartões postais: sempre mais interessado no volume e diversidade da coleção do que na sua utilidade prática.
Os gregos, por exemplo (e quando eu uso esse coletivo, estou falando basicamente de Heródoto e Tucídides, que certamente não foram os únicos gregos a escrever histórias, mas estavam entre os poucos a fazê-lo com o pretensioso rigor do historiador moderno), acreditavam que a História era uma forma de imortalidade. Fazia-se historiografia para salvar da avassaladora perenidade da natureza os atos e feitos dignos do ser humano. Se é natural que os homens morram e seus filhos e netos esqueçam ou não saibam o que ocorreu de grandioso no passado, a História existe para ensiná-los sobre Péricles, sobre Sólon e sobre a guerra entre atenienses e espartanos. A História existiria, portanto, para deixar vivo o legado dos grandes homens e grandes atos.
É Platão quem fulmina essa justificativa acerca da utilidade da história. Sua metafísica, aqui, age como o próprio relâmpago de Zeus; afinal, o que é conhecer o fato histórico quando podemos conhecer a própria essência das coisas? Pouco vale conhecer Péricles, há de se conhecer a Virtude em si; pouco vale conhecer a legislação de Sólon, há de se conhecer a Justiça em sua pureza ofuscante. Em outras palavras, a utilidade da história seria, na melhor das hipóteses, a de fornecer uma erudição vazia e insignificante; ao passo em que a filosofia forneceria o sublime conhecimento das idéias essenciais que compõem o mundo. Platão, no fim das contas, não fazia mais do que nos lembrar que um homem é apenas um homem e um acontecimento é apenas um acontecimento, e que nenhum dos dois nos mostra o que há de realmente universal no cosmos.
Se, contudo, avançarmos um pouco e formos parar na Itália do século XV, veremos que o saber historiográfico de repente ganha enorme utilidade didática. É nesse momento que a História passa a ser entendida como “Mestra da Vida”, ou seja, como um enorme depósito de instruções para se agir no tempo presente. Nesse sentido, é importante que se conheça a campanha militar de César, para o caso de você – um dia, quem sabe? – precisar lidar com uma horda de bárbaros furiosos. É preciso que se conheça a trajetória do Senado romano, para que estejamos aptos a enfrentar os problemas da política republicana. É preciso que conheçamos a batalha de Agincourt para que nunca – nunca! – subestimemos o poderoso arco longo dos ingleses. A narrativa historiográfica é, portanto, um Grande Manual Cósmico da Vida, o antídoto da indecisão, o remédio contra a ignorância. A História nos auxiliaria na medida em que o tempo estaria fadado à repetição: cedo ou tarde, nos veríamos em situações semelhantes àquela em que gregos e romanos se viram, logo, teríamos a enorme vantagem de poder aprender a priori com a sua experiência.
Essa justificativa é extremamente popular até hoje. Lembro de um taxista que insistia fervorosamente que eu, como estudante de história, deveria saber exatamente como evitar os erros do passado e repetir seus acertos. Alias, quem aqui não acha que um historiador deve olhar o passado com o objetivo de concertar o presente, ou de impedir que ele degringole de vez?
Mas essa estrutura não se sustenta plenamente, e isso é devido a uma infernal invenção da própria historiografia: o contexto. Os “erros” e “acertos” do passado, em ultima instância, pertencem ao passado. Não podemos estabelecer uma conexão direta entre a república romana e a república atual simplesmente porque os vários fatores (mentais, políticos, estéticos, filosóficos) que condicionavam aquela não estão presentes nessa; assim como as particularidades do nosso tempo não existiam como tais no passado. A “História Mestra da Vida”, portanto, sucumbe diante da percepção de que os tempos mudam, de que o presente não é análogo ao passado, mas é outra coisa: as pessoas agora comem fast food, andam de ônibus, votam em maquinas, usam camisinha e bombas atômicas. Nada na História nos prepara para os possíveis problemas de um mundo desses. Até o século XVIII, a percepção acerca da mudança das coisas ainda era incipiente, o mundo ainda parecia funcionar sob os mesmos paradigmas, os homens percebiam seu tempo como semelhante ao tempo dos seus ancestrais. Isso acabou: os gregos abominariam a idéia de um Big Brother.
É no século XVIII, contudo, que surge um dos maiores colossos da apologia à historiografia. Possivelmente, o item mais interessante da minha coleção. A chamada filosofia da História atravessou os séculos XVIII e XIX como um trem desgovernado, e passou pelo século XX tropeçando sobre os próprios trilhos. Conseguiu, contudo, chegar até nós íntegra e com uma força espantosa. Se para a Antiguidade grego-latina, a História era uma forma de imortalizar o passado e para a chamada Renascença Italiana, era uma forma de iluminar o presente; para a filosofia da História, vai ser uma forma de determinar o nosso futuro.
Temos nesse pequeno clube de historiografia alguns dos maiores pesos pesados do pensamento ocidental moderno, a valer: Marx, Comte, Weber e Hegel, por exemplo. E todos eles, apesar da radical diferença de posições e ideologias, concordam em um ponto: a História humana em sua (pretensa) totalidade, é dotada de um sentido. Desde o momento em que o homem consegue se comunicar e se referir ao seu próprio passado, a humanidade caminha de uma forma determinada para um fim determinado. É claro, esses elementos variam de autor para autor: Marx achava que a história humana era a história da luta de classes, e que seu fim chegaria com a revolução do proletário e o estabelecimento de uma sociedade verdadeiramente comunista; Comte, acreditava que a história humana caminhava rumo ao estabelecimento de uma sociedade positiva, livre de paradigmas teológicos e metafísicos de governo e representação. Em ambos os exemplos, não existe a “história dos gregos” ou a “história da Inglaterra”: há uma História Humana, que engloba a todos nós e nos leva a algum lugar. O conhecimento historiográfico, portanto, não possui apenas uma utilidade prática, mas uma aura romântica: saber História significa saber para onde estamos indo e, mais ainda, saber como acelerar essa caminhada. O saber histórico passa a permitir que direcionemos o rumo da nossa existência conjunta.
É difícil, para mim, dizer exatamente se esse modelo falhou ou não. E certamente, é desagradável – para nós, maravilhosamente modernos – imaginar que as guerras, genocídios e ditaduras do século XX estivessem nos planos históricos de alguém, mas é inegável que muitos desses eventos nasceram da expectativa de se atingir um objetivo tido como historicamente determinado. Enquanto a filosofia da História esteve presente na contagiante confiança iluminista e nos ousados projetos políticos do século XIX, ela não deixa de ser responsável por conflitos armados, pela forçosa expansão de modelos de pensamento e pela ojeriza ao que há de diferente e particular no mundo. Por definição, uma estrutura historiográfica que engloba um gigantesco número de povos e culturas sob um mesmo direcionamento político nega aspectos da individualidade humana. E isso é o berço do conflito moderno, seja ele interno (a desesperada busca por uma identidade que atravesse o universo público, que o distinga de outros socialistas, liberais, positivistas, conservadores e etc.), seja ele externo (a luta pela preservação de uma cultura, de uma memória, de uma forma de pensamento).
Esse é, me parece, o dilema que a História vive nos dias de hoje. De um lado, a senhora é vitima de uma profunda crise de identidade e auto-estima, e começa a se perguntar se tem, de fato, algum lugar na modernidade. De outro, passa a ser criticada também como força destrutiva, capaz de justificar atos e decisões enormemente irracionais e estranhos. Diante disso, então, qual é o valor de se conhecer, estudar e interpretar o passado?
Talvez o passado não possa ser lido de maneira funcional, e o ofício do historiador esteja livre para assumir um aberto papel de arte (História como a Arte de Interpretar Belamente o Passado). Talvez os historiadores estejam se aproximando mais de Homero do que de Heródoto, mais de Dante do que de Maquiavel, mais de Machado de Assis do que de Capistrano de Abreu. Certamente, essa afirmativa incomodaria muitos dos que acreditam rigidamente no poder (e dever) social do historiador como alguém capaz de contribuir direta e efetivamente para seu tempo e seu espaço. Mas a mim, ela não incomoda em particular: os artistas, afinal de contas, também influenciam enormemente o meio em que vivem, e o fazem com liberdade para tratar seu objeto da forma que bem entendem.
Talvez, a utilidade final da História venha a ser puramente estética. Talvez, ela sirva precisamente para o que o meu amigo Brenno Quadros identificou em mim: para nos deixar sóbrios diante de um mundo estranho, confuso e caótico. Talvez ela só sirva para satisfazer uma obscura idiossincrasia dos historiadores.
Eu, com toda sinceridade, não sei.
E enquanto não descubro, ecôo as palavras de um professor meu, e brinco de descobrir a utilidade de ser útil.
Caio Moraes Ferreira