Da Utilidade da História; ou Brenno Quadros.

September 28, 2009 - 5 Responses

Recentemente, fui elegantemente acusado de possuir certa apatia intelectual. Meu acusador explica: é culpa – ou, melhor dizendo, é uma conseqüência inevitável – da faculdade de História, a qual estou em fins de cursar. Em essência, o contato com a historiografia teria me deixado incapaz de se surpreender com o presente, uma vez que nenhum dos supostos absurdos de hoje em dia causaria impacto em alguém que passa a vida universitária estudando a Guerra do Peloponeso, ou a noite de São Bartolomeu, ou a escravidão no Haiti, ou a Crise de 29, ou Auschwitz…

Em suma, a História – por seu horror e por seu didatismo – teria me deixado incapaz de se espantar com as coisas: ela (porque a História é uma mulher, aparentemente) me forneceria as chaves para justificar o que quer que houvesse de equivocado com a nossa atualidade, e quando não fornecesse, me confortaria com a lembrança de uma catástrofe muito mais horrível que estava seguramente trancafiada nos confins do tempo, de onde nunca poderia sair.

A acusação a que me refiro aqui, paradoxalmente, me espantou muito. Não só porque é normal que sintamos exatamente o que as pessoas dizem que não sentimos quando assim o dizem; mas porque em momento algum da minha vida universitária o saber historiográfico me forneceu qualquer conforto. Desde o meu primeiro mês de universidade, a fatal pergunta “Para que serve, afinal, a História?” assombra a mim e a meus colegas, muito dos quais darão eruditos mais completos do que eu.

Ao longo dos últimos anos, contudo, eu tropecei em uma série de respostas para essa questão, e fui colecionando-as como alguém que coleciona selos ou cartões postais: sempre mais interessado no volume e diversidade da coleção do que na sua utilidade prática.

Os gregos, por exemplo (e quando eu uso esse coletivo, estou falando basicamente de Heródoto e Tucídides, que certamente não foram os únicos gregos a escrever histórias, mas estavam entre os poucos a fazê-lo com o pretensioso rigor do historiador moderno), acreditavam que a História era uma forma de imortalidade. Fazia-se historiografia para salvar da avassaladora perenidade da natureza os atos e feitos dignos do ser humano. Se é natural que os homens morram e seus filhos e netos esqueçam ou não saibam o que ocorreu de grandioso no passado, a História existe para ensiná-los sobre Péricles, sobre Sólon e sobre a guerra entre atenienses e espartanos. A História existiria, portanto, para deixar vivo o legado dos grandes homens e grandes atos.

É Platão quem fulmina essa justificativa acerca da utilidade da história. Sua metafísica, aqui, age como o próprio relâmpago de Zeus; afinal, o que é conhecer o fato histórico quando podemos conhecer a própria essência das coisas? Pouco vale conhecer Péricles, há de se conhecer a Virtude em si; pouco vale conhecer a legislação de Sólon, há de se conhecer a Justiça em sua pureza ofuscante. Em outras palavras, a utilidade da história seria, na melhor das hipóteses, a de fornecer uma erudição vazia e insignificante; ao passo em que a filosofia forneceria o sublime conhecimento das idéias essenciais que compõem o mundo. Platão, no fim das contas, não fazia mais do que nos lembrar que um homem é apenas um homem e um acontecimento é apenas um acontecimento, e que nenhum dos dois nos mostra o que há de realmente universal no cosmos.

Se, contudo, avançarmos um pouco e formos parar na Itália do século XV, veremos que o saber historiográfico de repente ganha enorme utilidade didática. É nesse momento que a História passa a ser entendida como “Mestra da Vida”, ou seja, como um enorme depósito de instruções para se agir no tempo presente. Nesse sentido, é importante que se conheça a campanha militar de César, para o caso de você – um dia, quem sabe? – precisar lidar com uma horda de bárbaros furiosos. É preciso que se conheça a trajetória do Senado romano, para que estejamos aptos a enfrentar os problemas da política republicana. É preciso que conheçamos a batalha de Agincourt para que nunca – nunca! – subestimemos o poderoso arco longo dos ingleses. A narrativa historiográfica é, portanto, um Grande Manual Cósmico da Vida, o antídoto da indecisão, o remédio contra a ignorância. A História nos auxiliaria na medida em que o tempo estaria fadado à repetição: cedo ou tarde, nos veríamos em situações semelhantes àquela em que gregos e romanos se viram, logo, teríamos a enorme vantagem de poder aprender a priori com a sua experiência.

Essa justificativa é extremamente popular até hoje. Lembro de um taxista que insistia fervorosamente que eu, como estudante de história, deveria saber exatamente como evitar os erros do passado e repetir seus acertos. Alias, quem aqui não acha que um historiador deve olhar o passado com o objetivo de concertar o presente, ou de impedir que ele degringole de vez?

Mas essa estrutura não se sustenta plenamente, e isso é devido a uma infernal invenção da própria historiografia: o contexto. Os “erros” e “acertos” do passado, em ultima instância, pertencem ao passado. Não podemos estabelecer uma conexão direta entre a república romana e a república atual simplesmente porque os vários fatores (mentais, políticos, estéticos, filosóficos) que condicionavam aquela não estão presentes nessa; assim como as particularidades do nosso tempo não existiam como tais no passado. A “História Mestra da Vida”, portanto, sucumbe diante da percepção de que os tempos mudam, de que o presente não é análogo ao passado, mas é outra coisa: as pessoas agora comem fast food, andam de ônibus, votam em maquinas, usam camisinha e bombas atômicas. Nada na História nos prepara para os possíveis problemas de um mundo desses. Até o século XVIII, a percepção acerca da mudança das coisas ainda era incipiente, o mundo ainda parecia funcionar sob os mesmos paradigmas, os homens percebiam seu tempo como semelhante ao tempo dos seus ancestrais. Isso acabou: os gregos abominariam a idéia de um Big Brother.

É no século XVIII, contudo, que surge um dos maiores colossos da apologia à historiografia. Possivelmente, o item mais interessante da minha coleção. A chamada filosofia da História atravessou os séculos XVIII e XIX como um trem desgovernado, e passou pelo século XX tropeçando sobre os próprios trilhos. Conseguiu, contudo, chegar até nós íntegra e com uma força espantosa. Se para a Antiguidade grego-latina, a História era uma forma de imortalizar o passado e para a chamada Renascença Italiana, era uma forma de iluminar o presente; para a filosofia da História, vai ser uma forma de determinar o nosso futuro.

Temos nesse pequeno clube de historiografia alguns dos maiores pesos pesados do pensamento ocidental moderno, a valer: Marx, Comte, Weber e Hegel, por exemplo. E todos eles, apesar da radical diferença de posições e ideologias, concordam em um ponto: a História humana em sua (pretensa) totalidade, é dotada de um sentido. Desde o momento em que o homem consegue se comunicar e se referir ao seu próprio passado, a humanidade caminha de uma forma determinada para um fim determinado. É claro, esses elementos variam de autor para autor: Marx achava que a história humana era a história da luta de classes, e que seu fim chegaria com a revolução do proletário e o estabelecimento de uma sociedade verdadeiramente comunista; Comte, acreditava que a história humana caminhava rumo ao estabelecimento de uma sociedade positiva, livre de paradigmas teológicos e metafísicos de governo e representação. Em ambos os exemplos, não existe a “história dos gregos” ou a “história da Inglaterra”: há uma História Humana, que engloba a todos nós e nos leva a algum lugar. O conhecimento historiográfico, portanto, não possui apenas uma utilidade prática, mas uma aura romântica: saber História significa saber para onde estamos indo e, mais ainda, saber como acelerar essa caminhada. O saber histórico passa a permitir que direcionemos o rumo da nossa existência conjunta.

É difícil, para mim, dizer exatamente se esse modelo falhou ou não. E certamente, é desagradável – para nós, maravilhosamente modernos – imaginar que as guerras, genocídios e ditaduras do século XX estivessem nos planos históricos de alguém, mas é inegável que muitos desses eventos nasceram da expectativa de se atingir um objetivo tido como historicamente determinado. Enquanto a filosofia da História esteve presente na contagiante confiança iluminista e nos ousados projetos políticos do século XIX, ela não deixa de ser responsável por conflitos armados, pela forçosa expansão de modelos de pensamento e pela ojeriza ao que há de diferente e particular no mundo. Por definição, uma estrutura historiográfica que engloba um gigantesco número de povos e culturas sob um mesmo direcionamento político nega aspectos da individualidade humana. E isso é o berço do conflito moderno, seja ele interno (a desesperada busca por uma identidade que atravesse o universo público, que o distinga de outros socialistas, liberais, positivistas, conservadores e etc.), seja ele externo (a luta pela preservação de uma cultura, de uma memória, de uma forma de pensamento).

Esse é, me parece, o dilema que a História vive nos dias de hoje. De um lado, a senhora é vitima de uma profunda crise de identidade e auto-estima, e começa a se perguntar se tem, de fato, algum lugar na modernidade. De outro, passa a ser criticada também como força destrutiva, capaz de justificar atos e decisões enormemente irracionais e estranhos. Diante disso, então, qual é o valor de se conhecer, estudar e interpretar o passado?

Talvez o passado não possa ser lido de maneira funcional, e o ofício do historiador esteja livre para assumir um aberto papel de arte (História como a Arte de Interpretar Belamente o Passado). Talvez os historiadores estejam se aproximando mais de Homero do que de Heródoto, mais de Dante do que de Maquiavel, mais de Machado de Assis do que de Capistrano de Abreu. Certamente, essa afirmativa incomodaria muitos dos que acreditam rigidamente no poder (e dever) social do historiador como alguém capaz de contribuir direta e efetivamente para seu tempo e seu espaço. Mas a mim, ela não incomoda em particular: os artistas, afinal de contas, também influenciam enormemente o meio em que vivem, e o fazem com liberdade para tratar seu objeto da forma que bem entendem.

Talvez, a utilidade final da História venha a ser puramente estética. Talvez, ela sirva precisamente para o que o meu amigo Brenno Quadros identificou em mim: para nos deixar sóbrios diante de um mundo estranho, confuso e caótico. Talvez ela só sirva para satisfazer uma obscura idiossincrasia dos historiadores.

Eu, com toda sinceridade, não sei.

E enquanto não descubro, ecôo as palavras de um professor meu, e brinco de descobrir a utilidade de ser útil.

Caio Moraes Ferreira

Notas de Viagem – Londres, 20/07/2009

July 29, 2009 - 2 Responses

Nos países civilizados, os pombos são corvos.

PS.: Essa afirmação só é válida para os países em que a civilização não é mais aspiração político-social, mas uma delicada minudência estética.

Dandelo vai ao Inferno

June 23, 2009 - 5 Responses

“… depois de passar pelos portões de mármore, um indivíduo de espírito ordinário certamente ficaria surpreso de se ver em um suntuoso jardim. Ali, mangueiras, macieiras e figueiras se estendem até onde os olhos alcançam, misturando-se a girassóis, dentes-de-leão e, como não podia deixar de ser, muitas margaridas. Um sol aprazível dá ao lugar um morno e sonolento silêncio, como se fossem sempre as primeiras horas da manhã. Espantosamente, o Inferno é um local de beleza admirável.

Caminhando pelos apoucados bosques do lugar – e existe uma infinidade deles – tive a oportunidade de encontrar alguns dos indivíduos mais notáveis da nossa história. Vi Platão e seus discípulos deitados à sombra de um robusto carvalho, sentei-me com Rabelais e Petrônio em um esplêndido banquete de frutas e vinho, assisti Maquiavel erguer toda uma república em meio às arvores (uma perfeita república para os mortos) e observei enquanto Bernini, Michelangelo e Bruneleschi levantavam seus prédios e decoravam-nos com estátuas e afrescos. No Inferno, tudo parecia orbitar em torno do mais esplêndido humanismo e da mais bela virtude.

No centro daquele paraíso, se encontrava um palácio de beleza e proporções tão estonteantes que eu soube imediatamente que ele não poderia ter sido concebido pela razão humana, e soube também que aquela só podia ser a casa de Lúcifer, o Príncipe. Aos portões, fui recebido por um criado (um anjo de asas brancas e brilhosas) que foi solícito o bastante para me escoltar a presença do seu mestre. E enquanto eu subia longas escadas de mármore, vi os grandes banquetes romanos, os sábios de Atenas a deliberar na ágora, ninfas e espíritos banhando-se em grandes cachoeiras, e vi os planetas de Ptolomeu navegando em perfeita harmonia.

E por fim, depois dessa extraordinária caminhada, cheguei à corte de Lúcifer, a quem reconheci imediatamente não só pelo magnífico trono em que ele estava sentado, mas por suas feições finas e agradáveis (ao seu lado, sentado em um banco menor, estava Voltaire, que lhe divertia com um pequeno soneto). Vendo a majestade do Príncipe, enfim, fiz a melhor mesura que pude (apesar de estar velho e minha coluna não me obedecer como deveria) e perguntei-lhe o que estava em minha mente desde que cheguei nesse belíssimo lugar:

- Cara majestade, Príncipe Lúcifer, de tudo o que vi nesse local que nós, os sábios, chamamos de “Inferno”, nada foi condizente com o que ouvi dele a priori. Este é um lugar de sublime, de perfeição e sabedoria. Aqui, não vi qualquer sofrimento, ou dor, ou tristeza; do contrário, vi o mundo exatamente como ele deveria ser: pleno em sua simplicidade. E isso me deixou profundamente perplexo: não é esse o poço dos vis, o destino final dos pecadores e perversos? O Inferno não é, de fato, miséria, loucura e discórdia?

Ao ouvir a minha pergunta exasperada, o príncipe Lúcifer sorriu-me de forma cândida e doce, e respondeu:

- Ora, Dandelo, mas o Inferno dos sábios só pode ser um eterno exaurir das mentes. Uma infinita busca pela essência do homem, do mundo, de Deus, do Belo, do Bom e do Justo. Ah, e como eles remoem! Passam a eternidade remoendo a vida, as estrelas e a si mesmos. Vivem de uma aguda e terrível curiosidade que nunca será satisfeita, e pensam – pensam furiosamente! – até constatarem a essência da própria ignorância, e depois voltam a pensar. O Paraíso, não. O Paraíso não é astúcia, mas certeza: certeza de tudo, certeza plena e límpida das coisas, de você, e do Pai. O Inferno é meramente o lugar perfeito para não saber de nada, o lugar perfeito para se ter dúvidas. O Inferno dos sábios, Dandelo, é a própria sabedoria…”

Caio Moraes Ferreira

Sátiros

June 5, 2009 - 4 Responses

Em meio à leitura de “O Ensaio Sobre os Costumes”, de Voltaire – autor conhecido por suas incisivas demonstrações de racionalismo crítico –, me vi frente a uma suposição que, para nós do século XXI (que somos, além de modernos, perfeitamente racionais), pode parecer um bocado absurda. O philosophe admite como verossímil a possibilidade de existência de sátiros; ou, colocando a coisa em outros termos, reconhece a hipótese de que sátiros possam existir como híbridos homem-bode em terras até então longínquas e desconhecidas.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a autoria. De fato, Voltaire não conheceu a biologia moderna, mas seu mundo já era newtoniano (e ele, em particular, era um grande defensor das teorias de Newton); não era particularmente fã do Cristianismo, mas também não abraçou aquela estranha forma de neo-paganismo que alguns dos seus contemporâneos ostentavam. E sobretudo, o seu ceticismo mordaz (que hoje em dia copiamos descaradamente e nem percebemos) não lhe impediu de racionalizar algo tão maravilhosamente fantástico.

Eis que aqui existe uma lição. Hoje em dia, acreditamos em moléculas, micróbios e coisas com nomes totalmente ridículos como “aminoácidos”. E enquanto eu mesmo não desconfio de nada disso, também não vejo nenhuma dessas coisas. Pensando de forma estritamente volteriana, acreditar em Napoleão, por exemplo, exige o mesmo esforço intelectual que acreditar em sátiros (no sentido de que ambos os casos aparecem para nós através de textos escritos – na maioria das vezes por terceiros – e pinturas). Acreditar em protozoários ou mitocôndrias exige mais esforço ainda. Mas pelo menos os sátiros cantam, dançam e tocam flauta supostamente muito bem.

Ou seja: em um mundo onde as pessoas são aglomerados de probabilidade atômica, acreditar em sátiros é ser extremamente humanista.

Caio Moraes Ferreira

Antiecológica

June 2, 2009 - 3 Responses

Recentemente, comprei – em uma banca de jornal – uma edição barata da “Divina Comédia”. Todavia, ao mostrá-la a um ilustrado amigo e esperar seu ilustrado apreço, recebi uma reação carregada de desconfiança:

“Tem certeza de que essa edição está completa?” ele perguntou “Gastei um dinheiro ridículo em uma edição dupla e, mesmo assim, não foi das mais caras”. Edição dupla? Ora, o volume que eu tinha comprado era um só e nem era dos mais robustos.

Confesso ter ficado imediatamente preocupado de, na espontaneidade da minha compra, ter gastado dinheiro em uma “edição resumida”. Daquelas que barateiam o custo do livro sem prejudicar a maravilhosa brancura das páginas ou o maravilhoso colorido das capas (sabidamente cortando o que todo livro tem de sobra, as palavras). Afinal de contas, mesmo pouco dinheiro, quando mal gasto, é muito.

Mas não era esse o caso: na contracapa, como que a insultar meu pânico prematuro e pedante, as palavras “TEXTO INTEGRAL” constavam em letras devidamente garrafais.

Aquele mistério eu só fui resolver no dia seguinte. De fato, havia bastante integridade no texto que acabei comprando: ele havia meramente mudado da forma poética para uma forma prosaica, como uma borboleta que decide voltar a ser larva.

Dante Alighieri escreveu a história original na forma de um extenso e tortuoso poema humanista; e o livreto que eu tinha em mãos não fazia mais do que adaptá-lo ao formato plebeu do romance. E, assim, palavras que antes só podiam ser contidas em dois volumes grossos, enquanto prosa, foram facilmente comprimidas em um livrinho humilde.

Moral da história: a poesia é antiecológica, gasta papel demais.

Caio Moraes Ferreira